Retorno da rede particular às aulas presenciais: desigual e perigoso

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Retorno da rede particular às aulas presenciais: desigual e perigoso

Durante a pandemia do novo Coronavírus, o ensino de todas as modalidades da Educação tem ocorrido de forma remota, tanto nas instituições públicas como nas particulares.

Além de resguardar o maior número de vidas (não apenas de estudantes e profissionais da Educação, mas de toda a sociedade), a medida é uma questão de isonomia, pois trata todos os alunos da forma mais igual possível aos mantê-los sob as mesmas condições de ensino (remoto).

Mas aqueles que colocam preço nas vidas humanas não estão preocupados nem com uma coisa e nem com outra.

É por isso que donos de instituições particulares têm pressionado governos (municipais e estaduais) pelo retorno às aulas presenciais – e não é por motivos pedagógicos.

Por isso, eles “patrocinam” o Projeto de Lei 5595/2020, que obrigaria todos os estabelecimentos de ensino (básico e superior, público ou privado de todas as esferas) a retomar as atividades presencias. Dessa forma, elas não poderiam ser interrompidas nem mesmo se a pandemia se agravasse.

O Brasil é praticamente o único país do mundo que não teve um momento de recuo efetivo da crise sanitária. Ultrapassamos os 491 mil óbitos por Covid-19 em todo o país, e mais de 17 milhões de casos acumulados.
Mesmo diante da magnitude do problema, nossa vacinação é proporcionalmente muito lenta (pelo menos 77 países vacinaram mais pessoas em relação ao total da população) e, com frequência, faltam insumos para que elas sejam produzidas por aqui. Além disso, o governo age politicamente para barrar a entrada de novas vacinas, que poderiam estar salvando milhares de vidas todas as semanas.

Pressa no retorno presencial: por quê?

Há um misto de interesses políticos do Governo Federal (que faz de tudo para que a pandemia se prolongue) e dos setores econômicos que não desejam que seus lucros sejam reduzidos por causa de medidas de isolamento social.
Nisso se misturam também os interesses dos representantes dos empresários do comércio, que pressionam pela reabertura total e irrestrita das atividades.
Portanto, basicamente, a motivação dos donos ou acionistas das instituições particulares é financeira. Evitam-se os problemas econômicos do setor, enquanto se amplia o colapso do sistema de saúde brasileiro.
Por outro lado, o Governo Federal pouco fez para ajudar as empresas (especialmente as menores) a passar pela crise. Convenientemente, a pressão dos donos de escolas e faculdades cai como uma luva para seu projeto negacionista.

Apesar dos perigos à vida da população, há instituições abrindo na pandemia?

Infelizmente, sim.
Em diversos estados, a pressão das instituições particulares tem causado um verdadeiro “cabo de guerra” com governos e gestões municipais. Em muitos lugares, o “abre quando alivia e fecha quando piora” tem gerado um verdadeiro caos organizacional e pedagógico, principalmente nas escolas.
Tudo isso tem consequências reais. Em muitos estados onde a pandemia estava crescendo mais lentamente, a retomada de atividades presenciais em escolas tem contribuído para o aumento acelerado da contaminação e, novamente, para o colapso dos sistemas de saúde.
E há um certo componente “desumanizante” nessas pressões. Em diversos lugares do Brasil, pais de filhos que estudam em instituições particulares participaram de manifestações (patrocinadas por setores econômicos) para pressionar pelo retorno das atividades presenciais.
Muitos deles, provavelmente, não pararam para refletir sobre os impactos que isso teria nos professores e demais funcionários, e nem como isso geraria também pressão para que governantes decidissem pelas voltas às atividades presenciais nas escolas públicas que, na imensa maioria dos casos, não possuem pessoal, insumos e nem espaços suficientes para garantir um mínimo de condições sanitárias seguras e de distanciamento (ou seja, estão ainda mais vulneráveis).
E há também desigualdade de condições entre as instituições particulares. E esses mesmos riscos estarão presentes em muitas delas.
Além disso, esse estímulo todo serve de combustível para o discurso de ódio de quem nem tem filhos em idade escolar ou acadêmica, mas que repete essa pressão com base em conteúdos vindo de redes sociais e aplicativos de mensagens, gerando ataques violentos e incivilizados contra professores e demais membros das comunidades escolares e acadêmicas.

E na Bahia?

Por meio do Decreto 20.400/2021, o governo liberou as aulas semipresenciais em municípios com taxa de ocupação de UTI igual ou menor que 75%, inclusive na capital, Salvador.
Porém, a medida contribui não apenas para aumentar os riscos de contaminação, como também de internações, já que as taxas são muito variáveis e podem subir rapidamente – afinal, apenas 1.6 milhão dos baianos receberam a segunda dose (até o dia 15 de junho).
Neste período, diversas instituições tiveram que fechar porque tiveram funcionários que testaram positivo para Covid-19.
Como não há perda acadêmica, escolar ou econômica que valha a vida das pessoas, a retomada das atividades presenciais deve ser descartada para toda a rede educacional, pública e privada, de todas as esferas.

Sem vacina para todos, não é hora de retornar ao ensino presencial!
Até que toda a população esteja vacinada, não é hora de retornar às atividades presenciais na educação.
Acelerar esse processo poderia contaminar milhões de brasileiros, segundo estudo da Fiocruz, sem falar na potencial elevação das mortes.
Além disso, como as pessoas com idades mais avançadas estão sendo imunizadas primeiro, houve uma inversão na disseminação da pandemia e agora, em muitas localidades, hospitais e unidades de saúde estão ficando lotados de pessoas mais jovens, em faixas etárias que englobam desde estudantes universitários a grande parte dos professores e dos funcionários de escolas, faculdades e universidades.
Por isso, seja na rede pública ou na privada, o ensino remoto deve continuar porque está salvando vidas, e elas sim são essenciais!

 

Fonte: Campanha Essencial É a Vida